Este blog resume as descobertas, percepções e recomendações discutidas no webinar “Trajetórias entre estudo e trabalho: velhos e novos desafios para a juventude”, que aconteceu no dia 26 de novembro de 2020. Ele foi organizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e pelo International Policy Centre for Inclusive Growth (IPC-IG), e teve como moderadora e comentarista a Professora Titular Senior do departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo Nadya Araujo Guimarães. Como palestrantes, participaram Joana Costa, Ana Luiza N.H. Barbosa e Enid Rocha , pesquisadoras da Coordenação de Estudos sobre Mercado de Trabalho da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais do IPEA. 

Este webinário teve como objetivo discutir as diferentes dificuldades enfrentadas pela juventude em suas trajetórias de estudo e trabalho. Inicialmente, a partir de dados quantitativos e qualitativos coletados em Recife em 2018, é traçado um diagnóstico das trajetórias juvenis e dos dilemas entre estudo, trabalho e vida familiar. Em seguida, foi discutido como a pandemia da COVID-19 pode afetar ou agravar os desafios enfrentados nesta etapa da vida. Na última apresentação tratou-se especificamente dos efeitos da pandemia da Covid-19 sobre os jovens que “nem-nem”.

Você pode acessar a gravação do webinário aqui e os slides da apresentação aqui.

 

Conciliação de vida familiar, estudo e trabalho das jovens em Recife

Joana explica que sua pesquisa discute a conciliação da vida familiar com o estudo e trabalho em um grupo bem específico, jovens que passam pela gravidez na adolescência (de 15 a 19 anos). É observado mundialmente que a redução da taxa de fecundidade está fortemente ligada ao aumento da frequência de meninas no ensino médio. A pesquisa quantitativa abrangeu 1488 jovens de 15 a 24 anos de idade entrevistados em Recife no ano de 2018. Já a pesquisa qualitativa foi feita a partir de 6 grupos focais com 49 jovens na mesma cidade.

Se observou também através dos dados da pesquisa que os jovens com filhos têm uma propensão mais elevada de não estudar e não trabalhar, enquanto os jovens sem filhos têm uma proporção mais elevada que só estuda ou se capacita como visto no slide abaixo. Além disso, a proporção de jovens com filhos se mostrou maior na categoria de jovens que já abandonaram a escola ou repetiram algum ano escolar pelo menos uma vez na vida. 

Joana conclui sua exposição considerando que a gravidez ate os 19 anos está associada à maior defasagem idade-série e à elevada probabilidade de estar sem estudar e sem trabalhar, a menores expectativas em relação ao futuro , como: alcançar níveis elevados de escolaridade e melhor inserção no mercado de trabalho. As jovens que vivenciaram gravidez na adolescência também foram aquelas que , na pesquisa,  mais acreditavam nos papeis tradicionais de gênero na nossa sociedade. Nesse cenário, é importante pensar em políticas que contribuam para conciliação de atividades de cuidados, estudos e trabalho.

 

COVID-19, gênero e juventude: ampliação dos desafios?

Ana Luiza começa explicando que o objetivo do trabalho era identificar o impacto da pandemia (COVID-19) sobre vários grupos demográficos no mercado de trabalho e suas desigualdades. Procurou-se identificar especificadamente quem perdeu mais ocupação e quem entrou no mercado de trabalho em termos de gênero, faixa etária e raça.

Observou-se que a saída da ocupação foi maior na pandemia para a maior parte dos grupos analisados (veja o gráfico apresentado no webinar abaixo), em comparação com anos anteriores, sendo que os grupos mais vulneráveis tiveram taxas maiores de perda ocupacional (mulheres em relação aos homens, não brancos em relação aos brancos, e mais jovens em relação a outros grupos etários). Em comparação com crises econômicas e sociais dos anos passados, a crise de 2020 foi pior do que qualquer outra crise recente para todos os grupos demográficos, reforçando desigualdades pré-existentes.

Como atenuante da crise, Ana Luiza sugere políticas para conter demissões, como políticas de redução de jornada, e políticas para acelerar admissões com subsídios ou créditos para contratação, desonerar temporariamente as contratações com jornadas mais curtas.

 

Os Jovens que não trabalham e não estudam no contexto da pandemia da COVID-19 no Brasil

Primeiramente, Enid caracterizou os jovens sem estudo e sem trabalho no Brasil com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC)  2019. Os vários atributos podem ser vistos resumidamente no gráfico abaixo usado durante o webinário. Chama muito atenção no primeiro gráfico (jovens de 18 a 24 anos) que 46% desses jovens fazem parte do primeiro decil da pobreza, mais da metade são responsáveis e cônjuges dentro do domicílio, 24% são negros e 24% são do nordeste. Pode-se ver também que os jovens mais vulneráveis são os que estão fora do mercado de trabalho. Em relação a pandemia, a posição do jovem no mercado de trabalho se mostrou preocupante porque muitos saíram da informalidade indo diretamente e para a inatividade, aumentando o número de jovens que não trabalham e não estudam.

Essa, porém, não é uma situação permanente, pois há transitoriedade. Durante a pandemia, a probabilidade de transição entre as condições de quem não trabalha e não estuda para trabalhando e/ou estudando teve uma grande queda. Jovens com responsabilidades familiares e/ou problemas de saúde, incapacidade ou gravidez tem as chances ainda mais reduzidas de saírem da situação de inatividade em comparação com desocupados de curto prazo e desencorajados.

Finalizando sua apresentação, Enid recomendou a implementação de uma estratégia de políticas públicas capaz de enfrentar os principais desafios abordados: (1) desocupação de longo prazo dos jovens sem estudo e sem trabalho, que pode levar o jovem ao desalento trazendo consequências negativos para o resto da sua vida laboral; (2) a elevada proporção de jovens nem-nem que já se encontra desengajada do mercado de trabalho e da educação. Assim, a proposta do IPEA é considerar a heterogeneidade deste grupo e combinar medidas de elevação de escolaridade articuladas as ações de qualificação, de assistência a procura de emprego, de treinamento das habilidades socioemocionais, e de mentorias individuais.

Por fim, o webinário seguiu para uma rica sessão de perguntas e respostas entre os participantes e os painelistas. Assista aqui esse momento caso você tenha perdido!

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